Levantou-se.Estava farto de papéis. Olhou para as colegas. Continuavam a falar como se nada mais existisse. A mesma conversa de todos os dias. Dirigiu-se à casa de banho. Não que tivesse necessidade de lá ir, apenas para estar sozinho, sem papéis, nem colegas.
Foi para um dos compartimentos. Não estava para falar se alguém entrasse. Acendeu um cigarro. Que lugar mais idiota para se estar de pé, a fumar, a olhar para as paredes, de azulejos brancos. Olhou para o chão. De um cinzento sujo, com pequenos quadrados. Lembrou-se das teclas de um computador. Começou a imaginar. Aqui o “q”, a seguir o “w”, os números em cima, o tabulador, … o tabulador … onde é que ali ficaria?
Viu uma aranha. Num canto da casa de banho. A lutar para se agarrar à superfície polida do azulejo. Pensou esmagá-la com o pé. Mas teria que meter a perna entre a sanita e a parede e não lhe apeteceu tal esforço. A aranha continuava a sua luta, presa por um fio que descia de uma teia, construída na junção da parede do seu lado esquerdo, com a parede do fundo, por trás da sanita, à sua frente. Como é que nunca tinha visto ali uma teia de aranha? Quase à altura dos seus olhos? Era a prova de como aquilo era mal limpo. A teia já tinha uma espécie de fuligem e dois insectos minúsculos, imobilizados num embrulho de fio de aranha. Já estariam comidos? A aranha continuava a balançar-se, sem se conseguir agarrar aos azulejos. Quereria voltar para a teia? Porque é que não voltava a subir pelo fio que a mantinha suspensa? Soprou na direcção da aranha. Pareceu ainda mais aflita, a agitar as patas sem conseguir agarrar nada. Voltou a soprar.Com mais força, desta vez. O mesmo resultado. A aranha, poderia dizer que esbracejava?, agitava-se sem qualquer resultado prático. Num impulso, foi com a mão até sentir que o seu movimento arrastava a aranha atrás. Quando esta sentiu uma aresta dum azulejo, soltou-se do fio quase invisível e subiu a correr até à sua teia. Escondeu-se o melhor possível, no fundo daquele emaranhado de fios, só visíveis pela fuligem e pelos dois insectos ali aprisionados. Parecia mais um grão de poeira, contra o fundo claro do traço de união de dois azulejos.
Soprou-lhe o fumo da última baforada do cigarro, puxou o autoclismo, mas não houve o mínimo movimento na teia de aranha. Desapontado, voltou para a sua secretária, para os seus papéis, para a conversa das suas colegas.
No dia seguinte, só quando foi à casa de banho se lembrou da aranha. Lá estava ela, no seu canto, como se não se tivesse movido desde o dia anterior. Ficou a olhar, enquanto fumava o habitual cigarro. Mas não via o que estava diante dos seus olhos. Pensava nos dias que ainda faltavam para o fim de semana. Nas horas a que teria de estar sujeito à tirania dos papéis. No tempo, que lhe parecia sempre infinito, em que teria que ouvir as colegas falar. Do que uma tinha, do que a outra não devia ter feito, daquela que andava metida com aquele, que ainda por cima era feio e nem sequer era rico, da desgraça que tinha acontecido, o marido tinha deixado a mulher e tinha fugido com uma que tinha metade da idade, da amiga que tinha uma prima, com uma cunhada que conhecia aquele sujeito que tinha aparecido na televisão.
Com fúria, como se com aquele gesto fosse tudo pelo cano abaixo, puxou a água, deitou o resto do cigarro para o centro daquele olho líquido e foi-se embora.
Quando voltou à casa de banho, antes de abrir a porta do compartimento, lembrou-se da aranha e abriu a porta com todo o cuidado. Quando espreitou, ainda a viu a refugiar-se no seu canto como se pretendesse dar a ideia de que nunca tinha saído dali. Acendeu o cigarro, soprou em direcção à teia e ficou à espera de qualquer movimento. Nada. Pensou queimar, com o isqueiro, alguns daqueles fios para ver se a aranha se movia. Ainda o acendeu, mas desistiu. Parecia-lhe cruel de mais.
Continuou a fumar e à espera que alguma coisa acontecesse naquela teia. Mas nada parecia ter vida naquele canto. Começou a pensar quantos dias viveria um insecto daqueles. Uma semana? Mais? Mentalmente prometeu ir consultar a enciclopédia que tinha lá em casa. Naqueles livros todos, algum deveria ter qualquer coisa sobre o assunto. E se não constasse como aranha e sim com o nome científico? Nunca conseguiria descobrir. Sabia lá o que é que chamavam a uma aranha. Mas, pelo menos, iria tentar. Não perdia nada em descobrir o tempo de vida médio de uma aranha das pequenas.
No dia seguinte, ao entrar na casa de banho, lembrou-se que não tinha ido consultar a enciclopédia. Nunca mais se tinha lembrado da aranha. Mas ela ali estava. Fora do seu canto, mas numa posição que, rapidamente, lhe permitiria regressar à sua segurança. Parecia mesmo que era ela que o estudava. Pensou se se estariam a olhar, olhos nos olhos. Como é que ela o veria? Um gigante, pronto a esmagá-la? Um predador, desejoso de a engolir? Um mamífero que não tinha qualquer interesse para ela? Acendeu o cigarro e isso despoletou uma corrida do pequeno insecto para o seu refúgio habitual. Mas não parecia tão escondida como dantes. Seria que ela já o reconhecia e não o considerava uma ameaça? Uma aranha teria essa capacidade? Seria capaz de se lembrar dele? Utilizaria os olhos para o identificar? Seria o seu odor? Bem, ali, na casa de banho, não seria o melhor sítio para identificar odores. E como reagiria ela aos outros utilizadores daquela sanita? Ainda se esconderia ou já estaria mais à vontade e andaria pela teia sem se preocupar? Quantos dias ainda teria ela de vida? E morreria na teia ou, como os elefantes, afastava-se para ir morrer a um local isolado, onde não fosse incomodada?
O fim de semana já tinha acontecido. Rápido demais. A ordem devia ser a inversa. Cinco dias fora dali e dois a trabalhar; isso sim, é que seria interessante. Dois dias passavam depressa. A rotina nem parecia ter sido interrompida. Logo que as colegas começaram a falar do fim de semana, pareceu-lhe que apenas as tinha deixado por uns minutos para ir à casa de banho. A aranha! Como teria ela passado aqueles dois dias? Ainda estaria viva? E se tivessem ido lavar os sanitários? E ele que nem sequer se tinha lembrado dela. Da mesma maneira que esquecera o trabalho e todas as chatices, às cinco e meia de sexta-feira, assim tinha deixado de pensar nela. Mas ela devia estar bem, dois dias sem ninguém lhe aparecer, devia ser um descanso. Iria vê-la logo que conseguisse.
Um problema com papéis e datas impediu-o de ir ver e pensar na aranhita. Foi só quando voltou do café e lhe apeteceu o cigarro que se lembrou.
Ainda lá estava. Na teia estava preso um insecto, muito maior do que ela. Parecia um helicóptero em miniatura. A aranha parou por uns segundos, a lembrar-se dele ou a ver o que ele iria fazer, e retomou a sua tarefa de embrulhar o outro no seu fio prateado. Parecia um trabalho superior às suas capacidades, mas ela fazia-o, meticulosamente. A pouco e pouco, o outro insecto, que não se tinha mexido desde que ele entrara, ficou envolto no fio da pequena aranha. Ela devia estar extenuada, pois deixou-se ficar ao lado da presa, imóvel. Como comeria ela aquele monstro? Certamente, a bocados muito pequenos. Ou faria como as cobras que engoliam a refeição de uma só vez e ficavam, depois, a digerir, num lugar seguro, quase incapazes de se moverem? Voltou a lembrar-se dos dias que ela ainda teria de vida. No fim de semana não tinha ido ver a enciclopédia.
Nisto, a aranha corre a refugiar-se no seu canto. Porquê, se ele não se tinha mexido? Mais acima da teia, junto à divisória com o outro compartimento, tinha aparecido uma daquelas aranhas, não muito maior do que a já conhecida, mas com umas patas enormes, que lhe davam um ar ameaçador. Pegou no isqueiro, acendeu-o, aumentou a chama e pô-lo junto aos azulejos, por baixo da intrusa. Esta moveu-se, rapidamente, para o lado. Não para trás, apenas para fora daquele calor inesperado, mas mais na direcção da teia. Se seguisse o mesmo método, teria que queimar alguns fios da teia da sua amiga. Achou que ela compreenderia a necessidade de tal acto. O resultado foi quase o mesmo. A aranha pernalta voltou ao lugar inicial e uns fios da teia desapareceram. Se continuasse com aquilo, acabaria por destruir a maior parte da teia e fazer com que o insecto, que tão bem tinha sido embrulhado, acabasse por cair. Procurou chegar a chama mais perto da invasora, sem tocar nos fios. A sanita e a própria teia não lhe deixaram muito espaço de manobra. O esforço tinha sido inútil. A aranha limitava-se a fazer pequenos movimentos de um lado para outro, sem dar sinais de querer recuar. Só se se colocasse em cima da sanita. Mas poderia ser visto por quem entrasse na casa de banho. E se a aranha pernalta fosse o macho ou a fêmea que só vinha para acasalar? Se ele estivesse enganado e ao julgar defender sua pequena amiga de uma rival, de outra caçadora ou ladra de insectos, apenas impedisse que a natureza seguisse o seu curso. Mesmo que a outra aranha fosse uma predadora, teria ele o direito de intervir. Não deveria afastar-se e deixar que as duas resolvessem o que quer que fosse? Achou que era o melhor. Em jeito de despedida, olhou demoradamente para a sua amiga e regressou ao trabalho.
Por diversas vezes deu consigo a pensar na aranha. Estaria ela viva? Teria tido o seu encontro amoroso? Se tivesse havido luta, como se encontraria ela? Ferida? Teria sido obrigada a abandonar a sua teia?
As colegas não o deixavam concentrar-se, nem no trabalho, nem na minúscula amiga. No entanto, pareceu-lhe que havia alguma coisa de diferente no barulho habitual. Fez um esforço para se concentrar no que elas diziam. Era uma incapacidade sua, reconhecia, conseguir seguir a conversa delas mais do que alguns minutos. Mas, desta vez, falavam na morte de alguém. Uma colega estava mesmo a chorar. Percebeu que lhe tinha morrido uma prima, da qual era muito amiga. Uma chatice. Mas tinha que mostrar um mínimo de interesse para não ser ofensivo. Recorreu, inconscientemente, à sua técnica. Fixou o olhar na chorosa, como se lhe estivesse a dar toda a atenção, conseguia até mover a cabeça de acordo com a ênfase que a colega punha nas frases, mas o seu pensamento já procurava maneira de sair daquela situação e ir almoçar, sem ser muito incorrecto. Aproveitou o facto de a entrada da chefe ter desencadeado nova crise de choro e o recomeçar da história da morte da prima da colega, para sair sem dar nas vistas.
Apressadamente dirigiu-se às casas de banho. Nem se lembrou de abrir a porta com o habitual cuidado. A sua rapidez assustou a aranhita que foi a correr esconder-se no seu canto. Estava viva! E, com a velocidade que tinha mostrado ao ir refugiar-se, nem ferida parecia estar. Tinha, então, sido um encontro amoroso. Sorriu. Apeteceu-lhe o cigarro e quase se esqueceu que estava na hora de almoçar. Mas faltava qualquer coisa na teia. Era o insecto, tipo helicóptero. Tinha desaparecido. Olhou para o chão. Talvez tivesse caído por ele ter queimado alguns fios da teia. Viu atrás da sanita, à volta dela, mesmo ao pé da porta, mas não se via nenhum insecto. Afinal, tudo se tinha resumido a um simples roubo? Não. Poderia ter havido o encontro e como brinde ou chamariz, estava o helicóptero. Mais uma coisa para ver na enciclopédia, ou noutro lugar qualquer. Como funcionava o acasalamento entre aranhas. Mas era uma ideia interessante, aquela de uma refeição servir de chamariz para o parceiro sexual. Deitou fora o cigarro, olhou sorridente para o canto onde esta a sua amiga e despediu-se com um até logo.
Quando regressou, ao entrar no corredor que levava ao seu local de trabalho, o cheiro forte da lixívia fê-lo mudar de direcção e dirigir-se, aflito, quase a correr, em direcção à casa de banho. O cheiro forte vinha dali. Abriu a porta do reservado, ainda na esperança que a limpeza tivesse poupado paredes. Os azulejos brancos, ainda molhados, revelaram-lhe que, desta vez, a limpeza tinha sido a sério. Nem um fio de aranha tinha ficado. Olhou para o chão, desesperado, à procura da sua amiga. Nada. Tudo lavado a lixívia. E a aranha? Teria escapado? Voltou a procurar. No chão, nos azulejos, entre eles, nos cantos das paredes, nada. Nem sinal da pequena aranha. A sua amiga tinha desaparecido. Sentiu um nó na garganta. Os olhos ficaram-lhe húmidos. É do cheiro intenso da lixívia, tentou ele consolar-se.
Saiu triste e com um sentimento de culpa. Nem sequer tinha ido à enciclopédia ver coisas sobre aranhas, enquanto ela estava viva. Sentado, à sua secretária, frente aos seus papéis, ouvindo o barulho das suas colegas, não conseguiu evitar que uma lágrima lhe corresse pelo rosto abaixo. E logo uma colega tinha que estar a olhar:
- Então, senhor Acácio, o que é isso? A tristeza da nossa colega também o faz chorar? Vá lá, contenha-se. Se ela o vê assim, ainda fica pior. É incrível! Um homem, como o senhor, a chorar por uma pessoa que nem conhecia.
FIM
terça-feira, 17 de novembro de 2009
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